terça-feira, 12 de julho de 2011

Antônia, e sua coragem.

Antônia ficou grávida aos dezessete anos e seu pai a expulsou de casa e seu namoradinho não fugiu, mas nunca mais a desejou nem a quis, tinha a sua vida e foi cuidar dela. E nessa vida Antônia não tinha lugar, nem o seu filho.  Antônia foi para um abrigo de menores em gestação  cuidada por uma ONG, teve o seu filho.

E teria que se virar para cuidar daquele ser, tão frágil, tão seu. Tão mais frágil do que ela. Ele dependia de sua força e coragem agora. Arrumou emprego e voltou a estudar. E mesmo assim por algumas vezes teve que morar na ruas de São Paulo, amamentando o seu filho enquanto alguns individuo usavam crack próximo. Antônia, esperta sabia que não poderia entrar naquela roubada, mesmo a solidão de todos os dias, e estar-se só nesse mundo sem pais e amigos, não poderia se perder naquele mundo escuro. Apenas ela e o seu filho. 

Antônia como mãe não queria deixar o seu filho de forma alguma, a sua razão de viver passou a ser ele. Mas estava difícil. A ONG havia feito a sua parte lhe dando emprego e bolsas de estudo e não tinha mais recursos para abriga-la. Antônia então, estudando e trabalhando passou a  deixar o seu filho numa creche durante o dia e a noite  iam os dois dormindo ao relento. Um dia achou melhor  dar dignidade a seu filho e o colocou em um orfanato.  Seria por algum tempo e quando estivesse estabilizada o tomaria novamente.

A primeira noite dormindo na rua sem o seu filho doeu, mas ele estava melhor no quentinho do orfanato. O frio terrível da cidade de São Paulo estava chegando.  Antônia então passou a trabalhar nos finais de semana, ajuntando dinheiro para alugar uma casa. Estudava a noite, tomava o seu banho nos abrigos de cidade, e dormia na rua  porque nos abrigos sempre se pode ser estuprada. Antônia decidiu que não queria mais violência em sua vida. Nenhum tipo de violência e ofensa. Sempre estava sorrindo, lidando com educação com as pessoas e por tudo o que passava, não se sentia a infeliz. Antônia sentia esperança em cada dia. E em cada dia essa esperança  a levava  mudar a sua vida e lutava para isso.

Sempre ia ao orfanato ver o seu filho, ele estava bem. Ela então se fortalecia nisso. Um dia encontrou o pai de seu filho usando crack, estava acabado, magro e comido pela droga. Ele não a reconheceu e ela deu graças a Deus dele ter lhe metido um pé na bunda. E isso a fortaleceu mais ainda.

Alguns meses depois Antônia com bastante grana, alugou uma casa pequena próxima a uma creche da prefeitura. E comprou alguns poucos moveis necessários,  fez uma boa compra de alimentos.  E foi buscar o seu filho no orfanato. A responsável do orfanato a chamou em sua sala e disse que havia uma família rica querendo adotar o seu filho. E eles até mesmo pagariam para ela...
- Mande eles enfiarem esse dinheiro no cu deles.
-Mas...
- Eu não sou mulher de vender o meu filho. Se o coloquei aqui é porque eu precisava, mas agora não. Eu vou levar o meu filho. Ele tem mãe, e quero que tenha orgulho de mim. Aqui está cheio de crianças para serem adotados. Porque esses ricaços não adotam? 
-  Porque são crianças negras.Bem nosso país é racista você sabe disso. Dizem que não. Mas é racista sim. E essa crianças não tem muito futuro além desse orfanato.
- Pois bem , eu posso adotar uma criança.
-Ainda não tem idade para isso.
- Ano que vem faço dezoito anos. E ai vou adotar uma criança dessas que essa família não quer. E juro por Deus que essa criança vai ter orgulho de mim.

A diretora ficou sem palavras. Mas Antônia não. Ela reviu a guarda de seu filho o levou para a casa. Continuou os seus estudos, agora pagava para uma adolescente da ONG  gravida dormir em sua casa e cuidar de seu filho enquanto ela estudava. No ano seguinte se formou em administração de empresa, curso técnico e arrumou um cargo de encarregada de setor numa loja de departamento. "Ganhado" três vezes mais do que antes. Colocou o seu filho numa escola particular, financiou um apartamento e quando novamente foi promovida, agora para o cargo de gerente de setor nessa mesma loja, lembrou-se do orfanato e votou lá e conseguiu a guarda de uma menina linda negra e com cinco anos. Lembrou-se de seus pais mesmo a distancia que eles lhe impuseram. E convidou os seus pais para um almoço e ver a sua família e suas conquistas. 
O seu pai  ficou surpreso mas não deixou a sua ignorância de lado.
- Como conseguiu tudo isso? Você andou se prostituindo?- perguntou ele.

Antônia entendeu então que a vida lhe foi generosa quando a colocou só no mundo. Antônia pode fazer o seu próprio mundo, longe das mentes estreitas e derrotistas de seus pais. E valeu para ela o ditado que diz que nessa vida há coisa que é melhor perder do que achar.  Mandou o seu pai tomar no cu e disse que a porta estava aberta de sua casa para eles, mas que por favor não trouxessem intolerância nem ignorância.Agora ia começar  um curso de línguas, fazer uma faculdade e curtir a sua família. Nunca mais iria deixar alguém lhe ofender, nem lhe tirar o prazer de viver.